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Kube Arquitetura

Arquitetura de varejo

A Ri Happy tirou produtos da loja e fez o metro quadrado trabalhar mais

Ao reduzir a dependência da exposição e abrir espaço para entretenimento, serviços, parceiros e novas funções, a rede coloca outra pergunta na mesa: o que cada metro quadrado precisa gerar para o negócio?

Existe uma lógica bastante antiga no varejo físico: se o metro quadrado custa caro, é melhor colocar produto nele.

Mais exposição, mais sortimento, mais estoque disponível e, em teoria, mais chances de vender.

A Ri Happy resolveu testar justamente o contrário.

Nos últimos anos, a rede começou a retirar parte dos brinquedos de algumas lojas para abrir espaço para brinquedoteca, jogos, café, festas e outros serviços.

A decisão parece contraintuitiva porque mexe em uma ideia bastante enraizada: se uma loja vende brinquedos, cada área disponível deveria servir para colocar mais brinquedos.

Só que os resultados trouxeram uma discussão bem mais interessante do que simplesmente dizer que “experiência vende”.

A pergunta deixa de ser “quanto produto cabe nessa loja?” e passa a ser “o que esse metro quadrado pode fazer pelo negócio?”.

EcoVilla Ri Happy
O que aconteceu nas lojas convertidas

Menos estoque não significou menos produtividade

Quando os primeiros resultados da estratégia foram divulgados, 13 unidades da rede já operavam em formatos que incorporavam entretenimento e serviços.

-9%

Estoque

No conjunto das 13 lojas convertidas, a companhia reportou redução de 9% no estoque.

+77%

Vendas por m²

Mesmo com menos espaço dedicado ao estoque, as vendas por metro quadrado cresceram 77% nas unidades transformadas.

1,8 → 8

Visitas por ano

Segundo a empresa, a frequência média chegou a oito visitas anuais nas lojas com entretenimento.

O cliente não precisa comprar toda vez que entra

Um dos dados mais interessantes desse case não está diretamente na venda.

Nas lojas tradicionais da rede, um mesmo cliente voltava, em média, 1,8 vez por ano. Nas unidades com entretenimento, essa frequência chegou a oito visitas anuais.

O tempo médio de permanência também passou de 11 para 42 minutos, enquanto a taxa de conversão, segundo a companhia, praticamente não mudou.

Ou seja, o resultado não veio simplesmente de fazer cada pessoa comprar mais em cada visita.

Veio também de criar mais ocasiões para voltar.

É uma mudança pequena na frase e enorme na estratégia: a visita deixa de depender exclusivamente da próxima compra.

Uma loja de brinquedos tem uma frequência de compra naturalmente ligada a algumas ocasiões: aniversário, Natal, Dia das Crianças, um presente específico.

Se a relação com a marca depende sempre da necessidade de comprar um brinquedo, existem poucas razões naturais para retornar.

Uma brinquedoteca muda essa conta. Uma festa muda essa conta. Um café, uma sala de jogos ou uma atividade também podem mudar.

Espaço de entretenimento DiverTudo da Ri Happy

Tirar produto não significa desperdiçar área

No primeiro teste estruturado pela Ri Happy, no Shopping Bourbon, em São Paulo, cerca de 40 m² foram destinados aos serviços, ocupando entre 20% e 30% da loja.

Ao mesmo tempo, o estoque foi reduzido em mais de 20%. Ainda assim, a venda de brinquedos cresceu acima da média das outras unidades, e o entretenimento passou a representar até 7% da receita daquela operação.

Isso é especialmente interessante para quem trabalha com arquitetura comercial porque obriga a rever uma ideia muito comum de produtividade.

Uma área sem produto exposto não é necessariamente uma área que deixou de trabalhar para a venda.

Ela pode aumentar frequência, permanência, receita de serviços, relacionamento ou até favorecer a venda que acontece ao redor dela.

E, como a nova unidade da Avenida Paulista mostra, essa área também pode passar a gerar valor a partir de parceiros, conteúdos e marcas que não estavam originalmente dentro daquela equação.

Nova Ri Happy no Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista
Uma nova camada dessa estratégia

E se o metro quadrado também puder receber outras marcas?

Na nova Ri Happy do Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista, essa lógica ganhou outra dimensão.

A unidade reúne varejo, entretenimento, gastronomia e serviços. Mas uma das decisões mais interessantes está em espaços que foram preparados para receber parceiros e conteúdos diferentes ao longo do tempo.

A loja tem uma arena permanente que estreia em parceria com a Netflix, com uma experiência de Guerreiras do K-Pop.

Tem palco cenográfico, ambientes interativos e atividades que aproximam fisicamente as pessoas de um universo que elas já conhecem das telas.

Só que a parte mais interessante não é simplesmente ter Netflix dentro da loja.

A arena foi preparada para mudar e receber novos conteúdos da marca ao longo do ano.

Ou seja, aquele espaço não fica congelado no conceito do dia da inauguração.

A arquitetura cria uma base capaz de receber novas narrativas, eventos, campanhas e parceiros sem exigir que toda a operação seja redesenhada a cada mudança.

E aí o metro quadrado começa a trabalhar de outro jeito.

Ele não gera valor apenas pelo produto que poderia estar exposto ali. Pode gerar valor pelas marcas que recebe, pelo conteúdo que ativa, pelas pessoas que atrai e pelas novas razões que cria para voltar.

Shopping Cidade São Paulo

A nova unidade organiza essa transformação em três frentes

A proposta combina mudanças no próprio varejo, novas formas de entretenimento e integração da loja física com uma operação cada vez mais conveniente.

1

Novo varejo

O sortimento passa a ser mais curado e a loja é organizada por mundos e interesses, em vez de depender apenas da lógica tradicional de exposição.

2

Entretenimento

Arena, brinquedoteca, jogos, cafeteria, eventos e experiências de marcas criam novas razões para permanecer e retornar.

3

Ultraconveniência

A loja também participa da operação digital e da entrega rápida, conectando o espaço físico a diferentes canais de compra.

A loja começa a funcionar como uma plataforma física

A mesma lógica da arena aparece em outras áreas do novo formato.

O Café DiverTudo, por exemplo, recebeu ambientação inspirada no universo de Monopoly em uma parceria com a Hasbro. A operação tem ainda curadoria gastronômica da Biscoitê.

No mezanino, a DiverTudo Jogos segue a lógica das luderias, com mais de 250 jogos, mesas, salas para grupos, torneios, oficinas e programação de eventos.

A brinquedoteca também deixa de funcionar apenas como um apoio para quem está comprando. Ela tem operação própria, diferentes tempos de permanência e pode receber festas e atividades recorrentes.

Brinquedoteca e café no formato DiverTudo da Ri Happy

Netflix, Monopoly, Biscoitê e as próximas parcerias, portanto, não entram apenas para deixar a loja mais divertida.

Elas ampliam as funções comerciais daquele espaço.

A loja deixa de ser apenas o lugar onde a Ri Happy expõe seus produtos e passa a funcionar também como uma plataforma física para conteúdo, serviços e outras marcas.

É quase uma lógica de naming rights aplicada em escala menor e de uma forma muito mais flexível.

Uma área da loja pode receber uma marca hoje, outra narrativa amanhã e uma nova programação alguns meses depois.

Isso é bem diferente de criar uma cenografia específica, inaugurar a loja e torcer para que ela continue relevante pelos próximos cinco anos.

Arquitetura como estratégia

O espaço não precisa ficar congelado no dia da inauguração

Essa talvez seja uma das leituras mais interessantes do case.

Quando uma área é projetada para mudar, ela consegue acompanhar campanhas, temporadas, novos parceiros e diferentes comportamentos sem exigir uma reforma completa sempre que a estratégia comercial muda.

A flexibilidade deixa de ser apenas uma questão construtiva. Ela começa a ter valor para o próprio modelo de negócio.

Arquitetura flexível não é fazer um espaço genérico. É criar uma estrutura que consiga continuar útil quando o conteúdo muda.

Para uma rede, isso pode significar elementos reaproveitáveis, áreas reconfiguráveis, instalações preparadas para usos diferentes e uma relação menos rígida entre cada metro quadrado e uma única função.

Permanência por si só também não resolve

Fazer o cliente ficar mais tempo virou quase um indicador automático quando se fala em experiência no varejo.

Mas tempo de permanência sozinho diz muito pouco.

Uma pessoa também pode passar mais tempo na loja porque não encontrou o produto, porque a circulação é ruim ou porque esperou demais para ser atendida.

Nenhuma dessas situações é exatamente uma vitória.

No caso da Ri Happy, a permanência ganha relevância porque aparece associada a uma estratégia maior de frequência, serviços, entretenimento e eficiência operacional.

Para a nova unidade da Paulista, a expectativa da companhia é elevar o tempo médio de permanência de 11 para 42 minutos, aumentar a recorrência em 2,5 vezes, impulsionar o giro dos produtos em 51% e reduzir o estoque médio em 22%.

Esses números ainda são expectativas para o novo formato, e não resultados consolidados da unidade.

O ponto não é fazer alguém passar 42 minutos dentro de uma loja. É entender o que precisa acontecer nesses 42 minutos para que esse tempo gere valor para o cliente e para o negócio.

Experiência de marca dentro de uma loja Ri Happy
Antes do layout

Quando a loja ganha novas funções, as perguntas de projeto também mudam

O que realmente precisa acontecer fisicamente neste ponto?
O que precisa estar exposto e quanto estoque faz sentido carregar?
Que serviços ou experiências precisam caber na operação?
Existem áreas que poderiam receber diferentes usos ao longo do tempo?
Existe espaço que também poderia gerar valor para uma marca parceira?
De quantas maneiras essa loja consegue gerar valor para o negócio?

O espaço precisa trabalhar para a estratégia, não para um hábito

O case da Ri Happy é interessante justamente porque a empresa mexeu em uma premissa que parecia óbvia.

Uma loja de brinquedos vende brinquedos. Então uma loja de brinquedos precisa estar cheia de brinquedos.

Só que, quando a rede começou a testar outras funções para a área física, alguns metros quadrados passaram a trabalhar para o negócio de outras maneiras.

Eles ajudam a criar frequência, recebem serviços, geram receita própria, abrem espaço para eventos e, agora, podem receber também parceiros, conteúdos e diferentes histórias ao longo do tempo.

Não estamos falando apenas de colocar uma experiência onde antes existia uma prateleira.

Estamos falando de desenhar uma loja capaz de mudar junto com a estratégia comercial.

E esse é o ponto que vale levar para outros segmentos.

Não para sair retirando produto da loja amanhã ou achar que toda operação precisa de uma arena, uma cafeteria ou uma collab.

Mas para olhar uma planta e conseguir fazer uma pergunta com alguma frieza:

Essa área existe porque ainda faz sentido para a operação ou porque sempre fizemos assim?

No varejo, metro quadrado é caro demais para trabalhar no automático.

Quantas funções cabem no mesmo metro quadrado?

Quando a arquitetura nasce da estratégia, o espaço pode vender, prestar serviço, receber parceiros, criar recorrência e continuar se adaptando conforme o negócio muda.

Na sua loja, existe alguma área que poderia deixar de cumprir uma única função e começar a gerar valor de outras formas?

Fontes:

EXAME — “Aos 38 anos, Ri Happy tira brinquedos das lojas para vender mais”, publicado em 5 de agosto de 2026. Acessar matéria

Mercado&Consumo — “Ri Happy estreia loja com arena Netflix, café Monopoly e nova marca para ‘kidults’”, publicado em 27 de agosto de 2026. Acessar matéria